Suave é a noite

UMA LENDA DO RÁDIO

Durante uma entrevista coletiva, Mario Garofalo perguntou a Getúlio:“Presidente, as Casas Gebara, no intuito de colaborar com Vossa Excelência para o barateamento do custo de vida, resolveu vender todo seu magnífico estoque pela metade dos preços. O que o senhor acha disso?” Meio atônito, mas sempre populista, Vargas retrucou: “Acho excelente. Tal medida só merece louvores.”

Mario é daqueles sujeitos de quem se pode dizer, sem medo de errar, que veio ao mundo com jornalismo no sangue – sangue meio carcamano, meio nordestino, deste filho de pais italianos nascido em Fortaleza em 1920.
Foi num seminário em Jaboatão dos Guararapes em Pernambuco que ele editou seu primeiro informativo: uns manuscritos em folha de papel ao maço que reproduziam traduções de notícias italianas e traziam as novidades do internato. O título era “O Aspirante”. Isso foi em 1938. Logo, logo, Garofalo deixaria de atormentar os padres e largaria o jornalismo de brincadeirinha do interior do Nordeste para fazer notícia de verdade no Rio de Janeiro.

As lendas do rádio brasileiro registram que Mario Garofalo foi um dos primeiros a transmitir um acontecimento jornalístico ao vivo. Foi por volta de 1948, quando ele trabalhava na rádio Continental, já na Cidade Maravilhosa.
Mario ficou no ar do início da tarde até a meia noite narrando os detalhes de uma tragédia que resultou do desabamento de uma construção de seis andares no centro do Rio.

“A idéia era fazer o que nunca havia sido feito: rádio reportagem. Como? Ora, por telefone. Eu esticava metros e mais metros de fios a partir do aparelho mais próximo. Foi revolucionário e logo depois todos estavam copiando”, recorda.

Na época também era comum os jornais manterem plantonistas nos aeroportos, para flagrar celebridades que desembarcavam no país. A chegada de Garofalo e sua parafernália era motivo de excitação entre os colegas. “Se ele estava por lá era sinal de que havia notícia”, lembra Luiz Orlando Carneiro, então iniciando carreira de repórter no “Jornal do Brasil”.

No mundo da lua

Mario sempre agira com certa dose de inquietação: desde os tempos de internato em Pernambuco fora assim. Foi por causa da peraltice que ele escapou da vida de seminarista, para a qual o pai talhara o primogênito de uma prole de seis filhos: “Não me tornei padre porque sempre me rebelava. Não aceitava injustiças”.

No Rio, antes de assumir microfones, Mario Garofalo trabalhou como contínuo numa tecelagem. Dedicou-se ao ofício com tanto afinco que acabou vendendo tecidos para atacadistas africanos. Comércio de importação e exportação era atividade que também estava no sangue: o pai de Garofalo estabelecera-se em Baturité, no sertão cearense, transacionando cera de carnaúba e castanha de caju com negociantes de outros países. Após enfrentar o mundo dos tecidos, Mario ainda passou por uma firma norueguesa de comércio exterior, a KA&G do Brasil.

Em seguida, e antes de ingressar no mundo da comunicação, ele flutuou pelo mundo da lua: trabalhou no Observatório Astronômico da Escola Nacional de Engenharia do Rio, que fica no Morro do Valongo.
Com a experiência adquirida ali, pôde anos depois desempenhar a função de técnico de observação na Universidade de Brasília, onde conheceu Lúcia – uma paulista de São José do Rio Preto recém formada em pedagogia e então estudante de Direito. “Na época eu queira ir para a Austrália. Mas fui atraída por aquele homem de gravata- borboleta e até hoje não me arrependi”, relembra ela, que também viria a se formar em comunicação.

Lúcia e Mario estão juntos há 28 anos. É ela que cuida com carinho da administração e da burocracia da Brasília Super Radio FM, que é a menina dos olhos do casal. Deixa para Garofalo apenas os prazeres de veicular boa música para seus ouvintes, pinçando cuidadosamente as pérolas de um acervo que alcança 4.667 CDs e 3.953 LPs – sim, as velhas bolachas de vinil que alguns mais afobados jogaram no lixo em nome da tecnologia. “A rádio já não é mais nossa. É incrível como as pessoas a adotaram. Muitas vezes a gente se emociona e chora junto; o Mario mais que eu”, segreda Lúcia. Do seu primeiro casamento, Garofalo tem um filho (Mário Antonio), dois netos (Catarina e Gustavo) e um bisneto, Gabriel.

Getúlio, garoto-propaganda

Mas foi ainda na rádio Continental, quase dez anos antes de chegar a Brasília, que Mario Garofalo protagonizou um dos mais insólitos episódios do jornalismo brasileiro. Ele conseguiu arrancar de um presidente da República um depoimento favorável a um anunciante – um testemunhal, no jargão publicitário.

Patrocinadora da Continental, as Casas Gebara, um armarinho fino no centro do Rio, estava em temporada de promoções e Getúlio Vargas acabara de reassumir a presidência do país, com uma plataforma política que prometia varrer a carestia da mesa dos brasileiros, após as privações sofridas ao longo da Segunda Guerra e de um pós-guerra ainda claudicante na economia. Mario viu na conjugação dos dois fatores uma oportunidade de ouro.
“Pensei: na pior das hipóteses eu vou preso. Mas me soltam depois”.

Durante uma entrevista coletiva, Garofalo disparou a pergunta à queima-roupa ao mandatário, no estilo meio rococó da época: “Presidente, as Casas Gebara, no intuito de colaborar com Vossa Excelência para o barateamento do custo de vida, resolveu vender todo seu magnífico estoque pela metade dos preços. O que o senhor acha disso?”
Meio atônito, mas sempre populista, Vargas retrucou: “Acho excelente. Tal medida só merece louvores.” Pronto. Estava registrada a valiosa declaração, que seria veiculada na Continental a cada meia hora durante os três meses seguintes. Nunca a Gebara vendeu tanto. “Os estoques da rua Luis de Camões foram renovados 26 vezes naquele período”, conta Garofalo, orgulhoso. A estripulia rendeu-lhe, é claro, uns caraminguás a mais no bolso, pagos com o maior prazer pelo anunciante.

Já de posse de credenciais desta natureza, Mario desembarcaria alguns anos depois em Brasília. “Eu e as notícias estamos aqui”. A mudança para a nova capital não estava nos planos do então setorista da presidência da República pela rádio e TV Tupi, dos Diários Associados. Ás vésperas da inauguração da cidade, Garofalo foi convidado a integrar uma caravana de 52 veículos que por nove dias percorreu a recém construída Belém-Brasília ao lado de algumas autoridades.

Feita a travessia, o grupo ainda prosseguiu até o Rio e depois para Porto Alegre. Concluído o périplo, coube a Garofalo, já enturmado com o clima de festa reinante, irradiar a inauguração de Brasília, tarefa cumprida com o auxílio de uma rede de 12 retransmissores de microondas interligando a nova capital a Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio de Janeiro e São Paulo.

Passada a festa, ele pediu uma horinha de audiência com Juscelino Kubitschek para despedir-se do presidente bossa nova antes de retornar ao Rio. JK retrucou: “O que você vai fazer lá? Afinal, agora eu e as notícias estamos é aqui.”Atuando há 15 anos como setorista da presidência da República, Garofalo explicou que estava mal acomodado na cidade, dormindo improvisado debaixo de uma escada, e que não tinha como permanecer ali. Como aqueles eram tempos bem mais auspiciosos que os atuais, de uma penada JK determinou que arrumassem uma casa para o radialista – um apartamento de terceiro andar na quadra 306 Sul. Lá se vão 44 anos do episódio e Mario nunca mais deixou a cidade; hoje vive numa casa no Lago Sul.

Apelo a Figueiredo

Ele não só ficou, como logo depois assumiu a direção do Correio Braziliense, onde permaneceu por cinco anos, entre 1960 e 1965. Mas o laço definitivo com Brasília só seria atado 20 anos depois.

Com quase 40 anos de jornalismo, Garofalo alimentava o sonho de ter sua própria emissora de rádio. Quando o Dentel, departamento então encarregado de cuidar da expedição de licenças para exploração das comunicações no país, decidiu licitar uma nova concessão de FM na capital, Mario não pensou duas vezes.

Ancorado também na experiência de ter atuado na implantação da TV Brasília, ele avaliou que tinha todas as condições para levar a autorização. “Por ocasião da implementação da TV, o (Assis) Chateaubriand não pagou nem a antena. Mas isso não foi problema: montei uma com vergalhões de ferro de construção que funcionou sem problemas durante um ano”, recorda.

Vencedor de direito da disputa no Dentel, Garofalo não conseguiu levar a autorização de fato. Foi preciso protestar para garantir a concessão. “Eram dez concorrentes e eu fiquei cinco pontos à frente deles. Mas o pessoal do Dentel investigou a minha vida e disse que eu não tinha um tostão furado”. Não foi suficiente para fazê-lo desistir da empreitada. Mario deu um jeito de falar com o então presidente da República, João Baptista Figueiredo.
“Presidente, onde está a coerência de seu governo? Eu ganhei uma rádio e agora não querem me dar”, reclamou, logo depois de um desembarque do general em Brasília. A grita deu certo.

A palavra do papa

A Brasília Super Rádio FM foi inaugurada com a transmissão de uma bênção do papa João Paulo II. Católico fervoroso, Mario conseguiu dirigir-se ao santo padre desfilando seu italiano de berço. Quando João Paulo II visitou Brasília, Garofalo pediu-lhe que benzesse a emissora. Uma placa em bronze fixada numa das paredes da rádio, cujos estúdios situam-se logo abaixo da Torre de TV, registra a data histórica: 30 de junho de 1980.

A devoção faz com que todos os domingos, também religiosamente, às 11h59’30” seja transmitida a Palavra do Papa, depois de o texto passar pela tradução de Mario, à qual se dedica desde a manhãzinha. Outras 40 rádios do Brasil retransmitem as palavras do papa vertidas por Garofalo para o português.

Não é só o santo padre que abençoa a Brasília Super Rádio FM. Uma estátua de Dom Bosco – religioso que teria vislumbrado a criação da capital federal quase um século antes de o sonho virar realidade nas mãos de JK – também vela pelas instalações da emissora. “Aí está um religioso muito moderno e revolucionário. Até para escolher santo sou meio rebelde”, brinca Garofalo. Ele diz que desde que as missas deixaram de ser celebradas em latim – língua que domina junto com o italiano, o espanhol e o francês, este ainda que “meio esquecido” – não freqüenta mais igrejas.

Dessa maneira sobra mais tempo para que Mario se delicie com uma das suas outras paixões: os musicais hollywoodianos, principalmente os estrelados por Fred Astaire, seu preferido. Garofalo gasta parte de seus domingos assistindo vídeo lasers com as imagens dos clássicos. Quem já o viu nestas matinês privadas, que acontecem numa das salas da rádio, diz que nestas horas ele mais parece uma criança.
“Ele diz que vê os filmes do Fred Astaire para fazer como ele. Eu é que passo aperto depois, porque, pé-de-valsa como é, o Mario não dança, baila”, diz a apaixonada Lúcia.